fado

O Risco no Vidrado

Camila

96 воспр. · 0 в избранном · 4:22

Текст

O sol deita-se no Tejo
Ouro sobre o azul cobalto
No brilho de cada azulejo
Lisboa fala mais alto
Caminho por Alfama calma
Com o barro nas mãos cansadas
Trago o silêncio na alma
E a cor das madrugadas

Entrei na tasca da frente
No parapeito esquecido
Vi o risco que a gente
Desenhou num tempo ido
Um pedaço de cerâmica
Que o destino ali guardou
Numa curva tão dinâmica
Que a minha mão decorou

Trinta anos de salitre
Trinta anos de fornalha
Não há nada que me irrite
Nesta vida que trabalha

Não é mágoa, nem lamento
É o traço da tua mão
Que em cada novo ornamento
Guiou o meu coração
Trinta anos de vidrado
Pintei o que não vivi
Todo o fado é o meu passado
E o meu barro vive de ti

É azul, é só azul
O mar que te levou
É azul, é só azul
A vida que ficou

Partiste num barco a velas
Ficou o barro na mesa
Nas rimas das caravelas
Perdi a minha incerteza
Não espero que o mar te traga
Nem que a onda mude a cor
A saudade é uma braga
Que deu forma ao meu labor

No forno o fogo consome
A tinta que o tempo apaga
Mas não queima o teu nome
Nem a dor que já não esmaga
O pincel desliza lento
Sobre a face do painel
És o meu consentimento
Neste eterno carrossel

Olho a peça na minha palma
O desenho que fizemos
Trouxe paz à minha alma
Pelos mares que não vencemos
Sou artesã do destino
Mestra de um só pincel
O que era desatino
É agora o meu papel

Não é mágoa, nem lamento
É o traço da tua mão
Que em cada novo ornamento
Guiou o meu coração
Trinta anos de vidrado
Pintei o que não vivi
Todo o fado é o meu passado
E o meu barro vive de ti

É azul, é só azul
O mar que te levou
É azul, é só azul
A vida que ficou

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