fado

O Silêncio do Formão

Thiago

5 воспр. · 0 в избранном · 5:22

Текст

A chuva cai na telha antiga
No beco onde o sol não entra
A minha mão já não abriga
A madeira que me sustenta
Três anos faz que a porta cerra
Onde o carvalho se moldava
Hoje o silêncio faz a guerra
Na oficina onde eu cantava
O tempo é um mestre severo
Que nos tira o que mais amamos
Eu que fui ferro e fui esmero
Hoje sou sombra nos ramos

Sinto o perfume da serradura
Flutuando no ar do Tejo
A minha alma ficou dura
Sem o ofício que eu desejo

Fiz arcas para o pescador
Guardar as redes e a memória
Fui mestre sem nenhum senhor
Esculpindo a minha própria história
Agora o pinho descansa em paz
E o meu formão perdeu o fio
A vida é o que a gente traz
Neste correr de um longo rio

O pinho descansa em paz
O rio segue o seu desvio
A vida é o que a gente traz
Neste fado, neste rio

Lembro o som da plaina a deslizar
Tirando a pele ao tronco bruto
Era um modo de conversar
Num diálogo curto e absoluto
O carvalho dava o seu nó
Eu dava o jeito e o carinho
Hoje sinto-me um homem só
Neste meu fado, neste caminho
As aparas cobriam o chão
Como um tapete de ouro fino
Hoje sinto o peso do pão
Neste traçado do destino

As cicatrizes nestes dedos
São os desenhos da minha lida
Guardei do mar muitos segredos
No mobiliário de uma vida

Fiz arcas para o pescador
Guardar as redes e a memória
Fui mestre sem nenhum senhor
Esculpindo a minha própria história
Agora o pinho descansa em paz
E o meu formão perdeu o fio
A vida é o que a gente traz
Neste correr de um longo rio

O Tejo corre lá em baixo
Lento e cinza como eu sou
Já não procuro nem me acho
Naquilo que o tempo levou
A reforma é uma saudade
De ter as mãos sempre sujas
Nesta penumbra da cidade
Onde só ouço as corujas
O inverno bate na vidraça
Com a força de um martelo
A mocidade é uma fumaça
Que se perde no meu cabelo

A plaina calou seu lamento
O sargento já não aperta
Vivemos todos de um momento
Nesta oficina sempre aberta
Setenta e dois anos de idade
Escritos em veios de madeira
Resta a doce conformidade
De ser cinza nesta lareira
Adeus ao pinho e ao carvalho
Adeus à mesa de trabalho

Fiz arcas para o pescador
Guardar as redes e a memória
Fui mestre sem nenhum senhor
Esculpindo a minha própria história
Agora o pinho descansa em paz
E o meu formão perdeu o fio
A vida é o que a gente traz
Neste correr de um longo rio

O pinho descansa em paz
O rio segue o seu desvio
A vida é o que a gente traz
Neste fado, neste rio

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