Suor, Cerveja e Piseiro
Thiago80 reproduções
Cheira a cola, a couro e a tempo Nesta oficina que o sol não toca Alfama dorme no seu lamento Enquanto a chuva nos vidros choca O pó de papel, ouro suspenso Cobre as mãos de quem só espera O meu silêncio é quase denso Nesta penumbra de primavera Abro um volume de rimas velhas Cai um papel, dobra cansada Ouve-se a água nas minhas telhas Como uma mágoa já terminada Uma mancha de chá, sombra de ontem No canto escrito com tal cuidado Que as palavras que ali se contem São o resumo do meu pecado Era o adeus que eu não li Guardado num verso de dor Quarenta anos que eu perdi Sem nunca falar de amor Prometi mundos, prometi o mar Mas o meu cais foi esta ladeira Vi-te partir sem me levantar Preso à saudade, à minha maneira Não há amargura, só aceitação Neste bilhete que o tempo guardou Alfama é a minha única prisão E o meu destino aqui se selou O Brasil era longe demais Para quem vive de livros e ais O Brasil era longe demais Disseste "vem", eu disse "vou" Mas a coragem não teve asas O cheiro a couro me acorrentou Às pedras gastas destas casas Ficaste em Santos, no cais da ida Eu fiquei mudo, a encadernar A costurar os retalhos da vida Sem nunca ter o dom de voar Os pequenos objetos são altares Guardam saudades que a gente esquece São como barcos sem rumo ou mares Onde a memória se compadece Olho o bilhete, toco o papel A tinta fraca ainda me fala O fado é doce, não sabe a fel Quando a revolta enfim se cala Prometi mundos, prometi o mar Mas o meu cais foi esta ladeira Vi-te partir sem me levantar Preso à saudade, à minha maneira Não há amargura, só aceitação Neste bilhete que o tempo guardou Alfama é a minha única prisão E o meu destino aqui se selou Agora fecho o livro com calma O pó assenta na prateleira Levo este bilhete dentro da alma Como se fosse a vida inteira A chuva para, o céu clareia Sobre o Tejo que não atravessei O coração já não se odeia Por tudo aquilo que não mudei
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