fado

O Bilhete de Alfama

Thiago

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Letra

Cheira a cola, a couro e a tempo
Nesta oficina que o sol não toca
Alfama dorme no seu lamento
Enquanto a chuva nos vidros choca
O pó de papel, ouro suspenso
Cobre as mãos de quem só espera
O meu silêncio é quase denso
Nesta penumbra de primavera

Abro um volume de rimas velhas
Cai um papel, dobra cansada
Ouve-se a água nas minhas telhas
Como uma mágoa já terminada
Uma mancha de chá, sombra de ontem
No canto escrito com tal cuidado
Que as palavras que ali se contem
São o resumo do meu pecado

Era o adeus que eu não li
Guardado num verso de dor
Quarenta anos que eu perdi
Sem nunca falar de amor

Prometi mundos, prometi o mar
Mas o meu cais foi esta ladeira
Vi-te partir sem me levantar
Preso à saudade, à minha maneira
Não há amargura, só aceitação
Neste bilhete que o tempo guardou
Alfama é a minha única prisão
E o meu destino aqui se selou

O Brasil era longe demais
Para quem vive de livros e ais
O Brasil era longe demais

Disseste "vem", eu disse "vou"
Mas a coragem não teve asas
O cheiro a couro me acorrentou
Às pedras gastas destas casas
Ficaste em Santos, no cais da ida
Eu fiquei mudo, a encadernar
A costurar os retalhos da vida
Sem nunca ter o dom de voar

Os pequenos objetos são altares
Guardam saudades que a gente esquece
São como barcos sem rumo ou mares
Onde a memória se compadece
Olho o bilhete, toco o papel
A tinta fraca ainda me fala
O fado é doce, não sabe a fel
Quando a revolta enfim se cala

Prometi mundos, prometi o mar
Mas o meu cais foi esta ladeira
Vi-te partir sem me levantar
Preso à saudade, à minha maneira
Não há amargura, só aceitação
Neste bilhete que o tempo guardou
Alfama é a minha única prisão
E o meu destino aqui se selou

Agora fecho o livro com calma
O pó assenta na prateleira
Levo este bilhete dentro da alma
Como se fosse a vida inteira
A chuva para, o céu clareia
Sobre o Tejo que não atravessei
O coração já não se odeia
Por tudo aquilo que não mudei

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