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Paroles
O sol desce lento em Mindelo A rede pede o meu zelo Nas mãos a linha traçada Na areia que foi morada O vento sopra um segredo Matando o meu próprio medo Dezessete janeiros de espera Numa eterna e fria quimera O horizonte é um muro de sal Onde o fim parece o sinal Trago no bolso o papel amassado Um resto de concha guardado O bilhete que o tempo não leu O filho que o mundo colheu Sodade que não tem amargura Só a luz que o peito escolheu Ah, esse mar que nos leva Ah, essa luz que nos treva O balanço é de mansinho Nesse meu triste caminho Lisboa roubou-me o olhar Nas águas que vi passar O navio que a bruma esconde Não diz para onde nem onde O café arrefece na mesa Enquanto a alma reza com presteza As ondas batem no cais Como se fossem meus ais O barco balança cansado No porto do meu passado Trago no bolso o papel amassado Um resto de concha guardado O bilhete que o tempo não leu O filho que o mundo colheu Sodade que não tem amargura Só a luz que o peito escolheu Lembro o menino pequeno Com o seu riso sereno Trazendo o tesouro na mão Batendo no meu coração O mar era um sonho de infância Hoje é só longa distância A rabeca chora um lamento Que foge com o movimento O ferrinho marca o compasso De quem já perdeu o seu passo Mas não há veneno na dor Só resta um imenso amor Trago no bolso o papel amassado Um resto de concha guardado O bilhete que o tempo não leu O filho que o mundo colheu Sodade que não tem amargura Só a luz que o peito escolheu Luz de laranja no mar Ensina o meu corpo a ficar O silêncio é o meu cais Onde não sofro jamais
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