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Lyrics
Noite de breu no Mercedes 190D Gasóleo no sangue que a cidade não vê Bandeirada dada na Praça da Figueira A vida é uma esteira de cansaço e poeira No para-sol guardo o papel do destino Cada talão é um fado que eu assino O rádio debita um jazz desgastado Num vinil riscado pelo tempo passado Lisboa sussurra entre becos e esquinas Promessas latentes em luzes divinas Mas no retrovisor o olhar é de gelo O peso do mundo me puxa o cabelo Lisboa que apaga no brilho do asfalto O sonho é rasteiro, o custo é tão alto No espelho vejo a alma que foge O amanhã morre no cansaço de hoje Contas na mesa, a esperança contida Neste táxi que corre no trilho da vida Bilhetes no sol, segredos na mão Rodas que giram no meu coração Entra um fato e gravata de seda fina Cheira a perfume, a poder e propina Levo-o à Lapa, onde o silêncio é ouro Enquanto no bairro o choro é coro Depois entra o puto com a sapatilha rota A fugir da bota, a traçar a sua rota Dois mundos distintos no banco de trás A paz que se vende, o caos que se faz O taxímetro conta a distância do abismo Entre o luxo fútil e o puro cinismo A calçada molhada reflete a injustiça De quem tem a mesa e de quem tem a preguiça Lisboa que apaga no brilho do asfalto O sonho é rasteiro, o custo é tão alto No espelho vejo a alma que foge O amanhã morre no cansaço de hoje Contas na mesa, a esperança contida Neste táxi que corre no trilho da vida Fecho os olhos e vejo a oficina Graxa nas mãos, a vizinha que ensina Bicicletas alinhadas, correntes a brilhar No bairro onde o sol me viu caminhar Sem recibos de renda, sem juros no banco Só o ferro e o suor no meu peito estanque Um sonho pequeno num mundo gigante Sou só um motorista, sou só um errante As luzes da ponte já perdem a cor O amanhecer traz o mesmo sabor Promessas políticas no cartaz da estrada Para mim são mentiras de voz rouca e cansada A renda subiu, o pneu já careca A vida é um jogo onde a sorte é parca Mas olho o para-sol, vejo o meu arquivo De cada quilómetro que me mantém vivo Um dia a chave não liga este motor E a oficina floresce com o meu suor Até lá eu conduzo por esta Lisboa Que é mãe e madrasta, que fere e magoa Lisboa que apaga no brilho do asfalto O sonho é rasteiro, o custo é tão alto No espelho vejo a alma que foge O amanhã morre no cansaço de hoje Contas na mesa, a esperança contida Neste táxi que corre no trilho da vida
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