hiphop tuga

Memória em Saldo

Thiago

98 main · 0 kegemaran · 3:52

Lirik

Banca de metal na esquina do Rossio
O papel amarela com o sopro do frio
Capas gastas, histórias em segunda mão
Onde o lucro é escasso e a alma é o pão
Abro um volume de um tempo distante
Sou o alfarrabista, o resto é figurante
Entre o pó das estantes e o som do elétrico
O meu mundo é real, o deles é estético
Vejo o brilho falso de quem só consome
Enquanto a cidade vai perdendo o nome
Calçada molhada reflete o cansaço
De quem vende a vida por cada pedaço

Eles passam com pressa, flash no olhar
Vendem a Lisboa sem saber o lugar
Eu guardo o que sobra, o que ninguém vê
O rasto do tempo que o asfalto não lê

Bilhetes de outrora entre folhas de papel
Lisboa é um palco com sabor a fel
Memória em saldo na calçada molhada
Onde a resistência não vale quase nada
Mas eu sigo aqui, no silêncio do breu
A ler o que o mundo já se esqueceu
Sim, a ler o que o mundo já se esqueceu

Encontrei um bilhete de setenta e dois
Um 'amo-te' eterno que morreu depois
Escondido num verso de um poeta menor
Hoje o que vale é o filtro e a cor
O turista pergunta o preço do drama
Não sente o peso de quem já não ama
Gentrificação em cada esquina aberta
A alma de Alfama agora é deserta
Hotéis de luxo onde havia vizinhos
Apressam o passo por novos caminhos
Sou o invisível na foto de grupo
O sobrevivente de um sistema corrupto

Bilhetes de outrora entre folhas de papel
Lisboa é um palco com sabor a fel
Memória em saldo na calçada molhada
Onde a resistência não vale quase nada
Mas eu sigo aqui, no silêncio do breu
A ler o que o mundo já se esqueceu
Sim, a ler o que o mundo já se esqueceu

Mãos calejadas de folhear o passado
O sistema ignora quem vive ao lado
Não sou o cartaz da cidade que é cool
Sou o cinzento que mancha este azul
Entre o Pessoa e um guia de viagem
Eu sou o fantasma desta paisagem

A chuva de inverno castiga o meu posto
O frio da Baixa desenha o meu rosto
Folha por folha, combato o esquecimento
Nesta precariedade que é o meu sustento
Não há marketing para o que é autêntico
O meu discurso nunca foi idêntico
Fecho a banca quando a noite cai
A memória fica, mas o povo vai
Guardo os bilhetes no bolso do peito
Nesta cidade que perdeu o respeito
pela história escrita em tinta e suor
Eu sou o livreiro, o resto é pior

Bilhetes de outrora entre folhas de papel
Lisboa é um palco com sabor a fel
Memória em saldo na calçada molhada
Onde a resistência não vale quase nada
Mas eu sigo aqui, no silêncio do breu
A ler o que o mundo já se esqueceu
Sim, a ler o que o mundo já se esqueceu

Komen (0)

0/500

Memuatkan…