fado

O Botão de Madrepérola

Camila

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Testo

A agulha fura a seda pura
Traçando o mapa da ventura
De quem se veste de alvorada
Enquanto eu fico aqui parada
Lisboa dorme à minha porta
A esperança já nasceu morta
Mas no dedal de prata antiga
A minha alma ainda o abriga

O linho frio toca os dedos
Coser a vida e seus enredos
Um ponto dado, um ponto morto
Sem nunca ver chegar o porto

Botão de luz, de madrepérola
No meu peito, a única pérola
São quatro décadas de espera
Em cada inverno, uma quimera
Ele levou o meu destino
Nesse balanço cristalino
E eu aqui, de linha em punho
Deste silêncio sou testemunho

As noivas vêm buscar o sonho
Neste meu rosto tão enfadonho
Provam o véu de renda fina
Ignorando a minha sina
O mar não manda uma notícia
Nem o roçar de uma carícia
Só o balanço da maré
Que me mantém ainda de pé

O linho frio toca os dedos
Coser a vida e seus enredos
Um ponto dado, um ponto morto
Sem nunca ver chegar o porto

Botão de luz, de madrepérola
No meu peito, a única pérola
São quatro décadas de espera
Em cada inverno, uma quimera
Ele levou o meu destino
Nesse balanço cristalino
E eu aqui, de linha em punho
Deste silêncio sou testemunho

Se o tempo para na costura
A dor é doce, não é dura
É um cansaço que me acalma
Um alinhavo na minha alma
Não peço barcos, nem regresso
Neste botão, eu me confesso

A luz da tarde já desmaia
Como uma onda sobre a praia
Guardo as tesouras e os panos
Contando os dias e os anos
O madrepérola reluz
É a minha sombra e a minha luz
Um náufrago no meu avental
Amor que é fado, amor fatal

Botão de luz, de madrepérola
No meu peito, a única pérola
São quatro décadas de espera
Em cada inverno, uma quimera
Ele levou o meu destino
Nesse balanço cristalino
E eu aqui, de linha em punho
Deste silêncio sou testemunho

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