Fora do Outdoor
Thiago55 écoutes
A chuva cai na telha antiga No beco onde o sol não entra A minha mão já não abriga A madeira que me sustenta Três anos faz que a porta cerra Onde o carvalho se moldava Hoje o silêncio faz a guerra Na oficina onde eu cantava O tempo é um mestre severo Que nos tira o que mais amamos Eu que fui ferro e fui esmero Hoje sou sombra nos ramos Sinto o perfume da serradura Flutuando no ar do Tejo A minha alma ficou dura Sem o ofício que eu desejo Fiz arcas para o pescador Guardar as redes e a memória Fui mestre sem nenhum senhor Esculpindo a minha própria história Agora o pinho descansa em paz E o meu formão perdeu o fio A vida é o que a gente traz Neste correr de um longo rio O pinho descansa em paz O rio segue o seu desvio A vida é o que a gente traz Neste fado, neste rio Lembro o som da plaina a deslizar Tirando a pele ao tronco bruto Era um modo de conversar Num diálogo curto e absoluto O carvalho dava o seu nó Eu dava o jeito e o carinho Hoje sinto-me um homem só Neste meu fado, neste caminho As aparas cobriam o chão Como um tapete de ouro fino Hoje sinto o peso do pão Neste traçado do destino As cicatrizes nestes dedos São os desenhos da minha lida Guardei do mar muitos segredos No mobiliário de uma vida Fiz arcas para o pescador Guardar as redes e a memória Fui mestre sem nenhum senhor Esculpindo a minha própria história Agora o pinho descansa em paz E o meu formão perdeu o fio A vida é o que a gente traz Neste correr de um longo rio O Tejo corre lá em baixo Lento e cinza como eu sou Já não procuro nem me acho Naquilo que o tempo levou A reforma é uma saudade De ter as mãos sempre sujas Nesta penumbra da cidade Onde só ouço as corujas O inverno bate na vidraça Com a força de um martelo A mocidade é uma fumaça Que se perde no meu cabelo A plaina calou seu lamento O sargento já não aperta Vivemos todos de um momento Nesta oficina sempre aberta Setenta e dois anos de idade Escritos em veios de madeira Resta a doce conformidade De ser cinza nesta lareira Adeus ao pinho e ao carvalho Adeus à mesa de trabalho Fiz arcas para o pescador Guardar as redes e a memória Fui mestre sem nenhum senhor Esculpindo a minha própria história Agora o pinho descansa em paz E o meu formão perdeu o fio A vida é o que a gente traz Neste correr de um longo rio O pinho descansa em paz O rio segue o seu desvio A vida é o que a gente traz Neste fado, neste rio
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