M
Letra
Banca de metal na esquina do Rossio O papel amarela com o sopro do frio Capas gastas, histórias em segunda mão Onde o lucro é escasso e a alma é o pão Abro um volume de um tempo distante Sou o alfarrabista, o resto é figurante Entre o pó das estantes e o som do elétrico O meu mundo é real, o deles é estético Vejo o brilho falso de quem só consome Enquanto a cidade vai perdendo o nome Calçada molhada reflete o cansaço De quem vende a vida por cada pedaço Eles passam com pressa, flash no olhar Vendem a Lisboa sem saber o lugar Eu guardo o que sobra, o que ninguém vê O rasto do tempo que o asfalto não lê Bilhetes de outrora entre folhas de papel Lisboa é um palco com sabor a fel Memória em saldo na calçada molhada Onde a resistência não vale quase nada Mas eu sigo aqui, no silêncio do breu A ler o que o mundo já se esqueceu Sim, a ler o que o mundo já se esqueceu Encontrei um bilhete de setenta e dois Um 'amo-te' eterno que morreu depois Escondido num verso de um poeta menor Hoje o que vale é o filtro e a cor O turista pergunta o preço do drama Não sente o peso de quem já não ama Gentrificação em cada esquina aberta A alma de Alfama agora é deserta Hotéis de luxo onde havia vizinhos Apressam o passo por novos caminhos Sou o invisível na foto de grupo O sobrevivente de um sistema corrupto Bilhetes de outrora entre folhas de papel Lisboa é um palco com sabor a fel Memória em saldo na calçada molhada Onde a resistência não vale quase nada Mas eu sigo aqui, no silêncio do breu A ler o que o mundo já se esqueceu Sim, a ler o que o mundo já se esqueceu Mãos calejadas de folhear o passado O sistema ignora quem vive ao lado Não sou o cartaz da cidade que é cool Sou o cinzento que mancha este azul Entre o Pessoa e um guia de viagem Eu sou o fantasma desta paisagem A chuva de inverno castiga o meu posto O frio da Baixa desenha o meu rosto Folha por folha, combato o esquecimento Nesta precariedade que é o meu sustento Não há marketing para o que é autêntico O meu discurso nunca foi idêntico Fecho a banca quando a noite cai A memória fica, mas o povo vai Guardo os bilhetes no bolso do peito Nesta cidade que perdeu o respeito pela história escrita em tinta e suor Eu sou o livreiro, o resto é pior Bilhetes de outrora entre folhas de papel Lisboa é um palco com sabor a fel Memória em saldo na calçada molhada Onde a resistência não vale quase nada Mas eu sigo aqui, no silêncio do breu A ler o que o mundo já se esqueceu Sim, a ler o que o mundo já se esqueceu
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